ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Secretário diz que divisão interna prejudica a Polícia e que ação preventiva teria reduzido ataques do crime no Rio
Postado por Mauro Malin em 29/12/2006 às 5:42:41 PM
 
 

O secretário de Direitos Humanos do Estado do Rio, sociólogo Paulo Baía, afirma que da resistência às indicações feitas para a área de segurança pública pelo governador eleito, Sérgio Cabral Filho, decorreu uma ação retardada e insuficiente das Polícias na atual onda de violência criminosa no Rio de Janeiro. Afirma que uma ação preventiva deixou a situação dentro dos presídios sob controle e que a própria ação policial depois da madrugada de quinta-feira foi eficaz, o que mostra que há meios de impedir sortidas de bandidos.

O secretário vê com esperança os planos anunciados e as escolhas feitas pelo governador eleito. Mas quem tem memória sabe que essa expectativa se repete praticamente a cada nova eleição. E a situação não parou de piorar ao longo de décadas. A análise de Baía, entretanto, sai do terreno das generalidades e aborda temas concretos, como a reintrodução da disciplina e do controle nas polícias, e o combate à corrupção em todas as suas formas.

Para que a mídia ajude, diz ele, é preciso “independência e coragem dos órgãos de imprensa e dos jornalistas”. Baía opina que uma melhor formação dos jornalistas poderia evitar que eles sejam canais para versões oficiais das autoridades. Ele também questiona a memória curta das redações, que prejudica o encadeamento lógico das reportagens ao longo do tempo. Para o secretário, o papel da imprensa é fundamental na democracia, porque ela é o principal veículo de controle externo das instituições públicas.

Paulo Baía sucedeu na Secretaria de Direitos Humanos do governo de Rosinha Garotinho o coronel PM da reserva Jorge da Silva, ex-coordenador de Segurança Pública (governo Anthony Garotinho). Baía fica no cargo até o dia 31. No dia 1, será sucedido pela ex-governadora Benedita da Silva. Voltará a ser professor de sociologia política da UFRJ.

Eis a entrevista que ele deu nesta manhã ao Observatório da Imprensa.

A Polícia diz que, nesta crise, agiu.

Paulo Bahia – Ela reagiu.

Se tivesse agido com competência, não teria havido 18 mortes, ou 11, se não incluirmos os sete assassinados no ônibus incendiado, porque é difícil impedir alguém de colocar fogo num ônibus com pessoas indefesas.

P.B. – Se as medidas preventivas tivessem sido tomadas, medidas de prontidão, de reforço, como foram tomadas na Secretaria de Administração Penitenciária, não é que não teriam acontecido casos, mas se minimizaria muito a situação. Por exemplo, a contenção das favelas.

Eu não estou especulando após o fato, mas a partir de informações já conhecidas há dois meses, e, com grande precisão, dois dias atrás. Este é o ponto principal: por que uma área prisional tomou as providências e a segurança pública não tomou.

No noticiário desta sexta-feira (29/1) não há menção a essas providências nos presídios. Os jornais falam em isolamento de chefões e em transferências de ex-policiais, mas em pequena escala.

P.B. – Mais de 3 mil presos foram movimentados em dois dias.

Mas a questão não é isolar o chefão preso. É isolar quem está fora.

P.B. – É preciso fazer as transferências, providenciar a supersegurança dentro dos presídios, mas fora também, sobretudo porque todas as áreas já foram mapeadas. Se se faz a contenção de todas essas áreas, os “bondes” de bandidos não saem. Foi o que aconteceu ontem (28/12): eles fizeram o cerco a todas as áreas onde estão esses pontos e os bandidos não saíram.

Só depois dos acontecimentos da madrugada.

P.B. – Depois da porta ter sido arrombada.

No noticiário sobre a composição da área de segurança do governo de Sérgio Cabral Filho (7 de dezembro, no Globo, por exemplo) registra-se que os chefes escolhidos não fazem parte de grupos dentro de suas corporações. Não se chega a dizer que eles sofrem resistência dentro das polícias. Só que a grande explicação para a inação diante das informações sobre os ataques de ontem...

P.B. – ... é a insatisfação generalizada na PM e na Polícia Civil.

Este contexto indica o grau de dificuldade para se administrar a segurança pública, as penitenciárias. Mas vai assumir um novo governo, que está dando sinais positivos.

P.B. – Está dando sinais de que vai jogar pesado no controle das forças de segurança e vai dar continuidade ao controle do sistema penitenciário.

Até porque, se ele não fizer isso, ainda mais no ano do Pan...

P.B. – ... ele cai. Pode não cair, mas sai desmoralizado. A questão da segurança pública já elegeu e derrotou todos os governadores, do primeiro governo Chagas Freitas (1971-75) para cá. Moreira Franco foi eleito porque disse que acabava com a violência em seis meses. Saiu [Leonel Brizola voltou ao governo em 1990] sem ter mais nenhum controle. Marcelo Alencar [1995-1998], a mesma coisa. Todos.

O que o senhor acha que pode acontecer de positivo na Polícia que ajude este novo governo a fazer o que é necessário?

P.B. – Acredito que a escolha para o comando da PM e da Polícia Civil de pessoas comprometidas com gestão eficiente, disciplina e controle dos maus policiais vai ajudar muito as instituições públicas fluminenses e cariocas. E uma integração com todas as forças policiais federais, indicada na escolha do novo secretário de Segurança [José Mariano Beltrame]. E ainda uma disposição do novo governador de agir de maneira integrada não apenas com o governo federal, mas também com os estados que fazem fronteira com o Rio – São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. O Dr. Beltrame tem muita competência para isso, porque ele é o responsável pela inteligência da Polícia Federal. Ao fazer isso se dá um salto de qualidade e aquilo que o governador [eleito] Sérgio Cabral tem chamado de choque de gestão na área.

Mas é preciso enfrentar com dureza a questão da corrupção. O que estou chamando de corrupção é, além da corrupção propriamente dita, a privatização dos serviços públicos, a venda de segurança privada com toda a estrutura do Estado. É preciso enfrentar as “milícias” – aliás, já disseram que vão fazer isso. As chamadas milícias reúnem policiais da ativa, da reserva, expulsos.

Existe alguma maneira de melhorar a seleção dos quadros policiais?

P.B. – O problema não é a seleção. São os controles internos e externos. Tem-se uma boa seleção e um bom treinamento. Mas quando se entra na rotina policial, esse homem e essa mulher que foram selecionados acabam caindo na cultura do desmando, da corrupção, da advocacia administrativa, da extorsão. Para isso, os mecanismos de controle interno, das corregedorias, e de controle externo são fundamentais.

A mídia, para corresponder a esse esforço e colaborar, o que ela certamente quer fazer, para ver melhorar este quadro, deveria também se reaparelhar?

P.B. – Deveria. E mudar sua cultura. A mídia deixa de fazer as perguntas que eu chamo de “subsolo dos sentimentos” e fica no nível das intrigas das versões oficiais. Quando não é porta-voz da versão oficial.

Para melhorar o trabalho da imprensa, o que, a seu ver, é necessário?

P.B. – Independência e coragem dos órgãos de imprensa e dos jornalistas.

Mas não seria necessária também um melhoria da formação?

P.B. – Seria interessante, sim, porque os jornalistas, hoje – vejo muitos que vêm me entrevistar –, têm uma pauta e desconhecem o conteúdo dessa pauta. Não fazem uma pesquisa prévia. Vêm fazer perguntas sobre assuntos dos quais não sabem nada. O que acontece? Acabam ficando com a versão das autoridades.

Mas não existem jornalistas que conhecem o assunto?

P.B. – Sim. Quando saem matérias desses jornalistas, elas são boas. Por exemplo, o jornal O Globo tem um bons jornalistas nessa área, que fizeram várias matérias sobre “milícias” [Vera Araújo e Sérgio Ramalho]. Há vários jornalistas especializados que não são porta-vozes das autoridades de segurança pública. Não são manipulados pelas versões oficiais. E não só das autoridades de segurança. Têm cuidado em dar tratamento e buscar a informação de forma mais precisa, checar a informação, não ficar com a primeira versão.

Para fazer sua tese de doutorado (“A Tradição Reconfigurada: Mandonismo, Municipalismo e Poder Local no Município de Nilópolis e no Bairro da Rocinha na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”; clique aqui para ter acesso ao arquivo em pdf), o senhor consultou a imprensa da época?

P.B. – Consultei os arquivos da Agência Globo, do jornal O Dia, do Jornal do Brasil, tive acesso a todos os arquivos da área de segurança pública, administração penitenciária, Exército, Poder Legislativo, Poder Judiciário. Tive muita facilidade onde outros encontram dificuldades, até porque eu exercia a função de subsecretário de Direitos Humanos.

E o que lhe parece: a cobertura ao longo dos anos melhorou, piorou ou está igual?

P.B. – Está igual. A crítica que eu faço é que a imprensa não realiza um trabalho de reflexão sobre o que ela mesma escreve. Você tem uma notícia lá atrás, três, quatro meses depois o jornalista dá uma versão inteiramente diferente, sem consultar o que o jornal escreveu antes. Isso acontece em larga escala.

Não se tem a memória.

P.B. – E as empresas jornalísticas têm bons arquivos. Na Agência Globo, na Agência Estado, na Agência Folha se tem material muito bom para pesquisa. Os jornalistas têm acesso direto a isso, para organizar sua pauta e estruturar suas entrevistas.

Por exemplo, ao longo desses dois últimos anos saíram várias matérias sobre “milícias”, algumas muito boas. Hoje o assunto aparece como se fosse uma grande novidade. Fica-se sem um encadeamento lógico que daria mais consistência a cada matéria que vai saindo.

E é evidente que esse papel da imprensa é fundamental, sobretudo num Estado democrático de direito, porque a imprensa é o principal veículo de controle externo. Na linha clássica da sociologia trabalha-se com a idéia de que o escândalo é um mecanismo de controle social. E quem provoca isso é uma reportagem sólida, precisa.

Comentários (5)
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Luis  Neubern, administrador (São Paulo/SP)
Enviado em 2/1/2007 às 3:43:54 PM

O poder econômico do narcotráfico é muito grande. Combater a corrupção dentro da polícia é uma tarefa muito difícil, porém possível. Uma boa medida, que em outros países deu bons resultados, foi afastar a polícia do combate ao tráfico, criando em seu lugar grupos especializados. Desta forma o monitoramento das ações dos mesmos torma-se mais efetiva. Outra boa medida no combate ao narcotráfico foi o "tolerância zero" do prefeito Giuliani, de Nova Iorque. Não quero aqui afirmar que o modelo seria perfeitamente adaptável à realidade das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. São quadros socioculturais e econômicos completamentes diferentes, entretanto, considerando a importante redução da criminalidade que o projeto promoveu, algumas linhas gerais poderiam ser discutidas. Uma delas é sua base de sustentação, ou seja, forte combate aos pequenos delitos. Tal medida reduziu drasticamente o tráfico no varejo nas ruas, forçando sua reformulação. Não tenhamos ilusão, o consumo e o conseqüente tráfico de drogas não acabarão. O importante é controlá-lo, torná-lo menos selvagem e danoso à sociedade. O tolerância zero é baseado na teoria das janelas quebradas, "broken windows theory", que tem como argumento que a desordem e a tolerância são a semente para crimes mais sérios, dai a origem do nome, onde uma casa com uma janela quebrada da impressão de abandono, levando a que outra se quebre.
Comentário do Autor
Há muita controvérsia a respeito dos fatores que resultaram na diminuição da criminalidade em Nova York. Durante algum tempo propagou-se a versão de que a "broken windows theory" estava na raiz da melhoria, mas depois isso foi desmentido por novos estudos. Não há um fator isolado responsável pela melhoria. Nunca há.
walter  Diogo, jornalista (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 2/1/2007 às 8:35:55 AM

Fico muito preocupado com essas tentativas de se atribuir aos meios de comunicação um papel muito superior ao que ele pode realmente desempenhar. Não é por falta de noticias ou de coberturas jornalísticas mais completas que o problema da violência no Rio alcança a dimensaão que tem hoje. É muito mais grave a ausência das universidades pensando junto com o aparelho de Estado sobre as soluções. Os governos não procurarm nas universidades, através de convênios específicios, as soluções para os seus problemas. Há muita improvisação e pouca pesquisa, pouco conhecimento científico. A entrevista do Paulo Baía mostra que existem informações importantes no mundo universitário que o Estado poderia usar muito mais. Tudo que se faz no Estado para resolver o problema da Segurança Pública é na base do achismo.. A entrevista do Paulo Baía mostra que um grupo de sociólogos pode ajudar o estado a pensar a uma política de segurança melhor do que dez delegados ou 40 policiais militares juntos. Estas pssoas devemn executar a política e não idealizá-la. Parabéns, Mauro. Esta sua entrevista é o que gostaria de ler nos jornais
Comentário do Autor
Assinalo apenas que até o dia 31 de dezembro Paulo Baía fazia parte do governo do estado do Rio de Janeiro.
Marco Costa  Costa, T.P.A. (São Caetano do Sul/SP)
Enviado em 1/1/2007 às 8:28:58 AM

Caro Maulin, seu IBOPE não esta dando nem sequer traço. Neste ano, procure uma nova atividade, porque esta vc já deu o que tinha de dar.
Marco Costa  Costa, T.P.A. (São Caetano do Sul/SP)
Enviado em 30/12/2006 às 11:16:53 AM

Estão todos remando contra a maré. Muita teoria, nada de prática. Bandido não conhece este linguajar, o que ele conhece é o descaso que os DOUTORES em saber tudo e não fazer nada. a não ser prejudicar às famílias deste batalhão de marginais, cria do sistema. Já escrevi dezenas de vezes, porém não sou doutor de nada, isto acaba caindo no vazio. Se faz necessário dar um lar decente para esta gente, desta maneira fica fácil eliminar às favelas, malocas, palafitas e os guetos espalhados pelo Brasil afora. Proporcionar escolas padrões para os filhos deste pessoal, emprego para todos com salários dignos. Não podemos esquecer das polícias. O trabalhador da Segurança Pública necessita ser valorizado, tanto no salário, quanto na sua formação. Quantos aos maus policiais cadeia neles. Com absoluta certeza, o que sobra os trabalhadores darão conta do recado. Rogo, não coloquem a imprensa nesta história, ela se presta somente para fazer escândalos, aumentar a gravidade do fato e vender notícias, a fim de melhorar a conta bancaria de seus patrões. A imprensa só serve para criar crônicas de fofocas, bem como receitas de bolos e, nada mais??? Só lamento o pouco espaço disponível para escrever tudo o que sinto e vejo no cotidiano.
Luis  Carls, Funcionário Público (Porto Alegre/RS)
Enviado em 30/12/2006 às 10:34:40 AM

A imprensa, através de numerosos comentaristas, principalmente de rádio e TV, mas também nos jornais, trata o favelado como bandido, anos e anos desse tipo de tratamento acaba justificando aos bandidos atitudes injustificáveis como eles fizeram. É terrorismo puro o que os bandidos fizeram, mas a imprensa tem forte parcela de culpa ao tratar bandido e pobre como sinônimo. A imprensa é autoritária e totalitária, qualquer um que pense em fazer a menor critica a imprensa é completamente destruído e desqualificado.
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Mauro Malin
Jornalista


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